sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Vagabundos e Pessoas de Bem


O que pode ter em comum uma secretária de escola privada, uma gestora de recursos humanos, um professor, um taxista, um jornalista, uma fisioterapeuta, uma diretora de curso de idiomas, um pastor evangélico formado em teologia e um policial militar? Resposta: todos são vagabundos, maloqueiros, vândalos e arruaceiros.

Mas há outra coisa em comum entre eles: uma rua chamada São Sepé. Era lá, no início dos anos 1990, onde muitas vezes nos encontrávamos. Uma rua no Jardim Brasil, bairro da periferia da zona norte de São Paulo. O motivo de ali ser um ponto de encontro é mais um exemplo da fronteira muito tênue entre vagabundos e pessoas de bem.

Sam e Meg: pessoas de bem
A descrição é difícil. Na rua São Sepé havia um longo muro. No meio do muro, na calçada estreita, havia um poste e neste poste havia um cabo de aço preso, que corria ao longo do muro até o outro poste. A altura deste cabo de aço e sua distância do muro, rente ao primeiro poste, permitia simular ali uma cesta de basquete, esporte pelo qual todos os vândalos citados acima eram fãs praticantes na juventude. Ali passávamos horas jogando e, inevitavelmente, incomodando o morador em frente ao poste, que era gente de bem.

Jovens que queriam apenas se divertir, passar algum tempo junto, praticar um esporte que gostavam. Mas ali, na periferia, em vez de praça, parque e quadra, havia um poste, um muro e um cabo de aço. E éramos felizes por tê-lo. Fora disso, seria o de sempre: o tédio.

Claro que incomodávamos o Sam e a Meg, apelido que demos para o casal que morava em frente ao poste e que vivia reclamando do barulho. A bola de basquete quicando no asfalto, a gritaria de quem jogava e de quem assistia, os cabeludos palavrões gritados uns contras os outros. Devia mesmo ser um inferno, admito, ainda mais agora que me tornei uma pessoa de bem.

Certamente Sam e Meg nos olhavam de trás das grades da janela da sala que ficava atrás das grades do portão da casa e se perguntavam (já duvidando) que futuro teriam aqueles vândalos boca-sujas e aquelas meninas que andavam com maloqueiros. Certamente nenhum.

Rolê de busão

Vagabundo tentando uma enterrada
A formação era variada. Na época não existia ainda telefone celular nem mp3. Mas nem por isso aqueles mesmos vagabundos arruaceiros deixavam de incomodar os passageiros do ônibus. Aglomerados no fundo, viajando mais de duas horas para chegar ao parque do Ibirapuera, cantavam músicas dos Racionais MC’s. As preferias eram “Fim de Semana no Parque” e “O Homem na Estrada”.

O que será que as pessoas de bem daquela época pensavam de nós? Pensavam que um dia até poderíamos nos tornar também pessoas de bem? Ou desejavam apenas que a polícia chegasse e nos fizesse calar a boca, nos ensinasse com cassetetes e tapas na cara a respeitar as pessoas decentes que queriam viajar em paz? Certamente, alguns até pensavam que devíamos ser proibidos de entrar nos ônibus.

Agora crescemos, nos tornamos pessoas de bem, e quando vemos um jovem da periferia com seu celular tocando funk em alto volume dentro do ônibus pensamos o mesmo. Que não tem futuro, que é um vagabundo sem educação, que deveria ser posto para fora do ônibus, marginal analfabeto e ignorante que é.

Estereotipar e acusar é mais fácil do que tentar entender. Mas a linha que separa vagabundos e pessoas de bem é mais fina do que parece. Talvez, na verdade, nem exista.
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Pessoas Que Excluí do Facebook



Aconteceu quando o debate era a redução da maioridade penal. Aconteceu quando o debate eram as manifestações de rua. Acontece agora quando o debate são os “rolezinhos” e a acontece também sempre que chega uma nova edição do BBB. Na verdade, acontece sempre que surge alguma polêmica capaz de mobilizar opiniões e gostos divergentes.

Nesses casos, renova-se sempre a onda no facebook de bloquear e excluir pessoas que estão “enchendo o saco” com seus compartilhamentos, opiniões, torcidas, indignações ou reclamando de tudo isso, ou do contrário de tudo isso. As justificativas são sempre de que se está excluindo de sua vida pessoas “idiotas”, “ignorantes”, “burras”, “reacionárias”, “preconceituosas” e outros tipos com adjetivos não muito elogiosos.

Pessoalmente, tenho por princípio aceitar qualquer pedido de amizade na rede social e tenho também por princípio jamais excluir qualquer pessoa. E continuo firme nesse princípio. Portanto, o título deste texto é apenas uma armadilha para atraí-lo até aqui. Mas já que chegou, porque não fica e lê o resto?

Claro que, em certa medida, até entendo o impulso de quem costuma sair fazendo as tais limpezas nas suas respectivas listas de contatos. Às vezes a coisa fica bem irritante, reconheço. E, afinal, cada um gere sua vida nas redes da maneira que achar melhor. Mas vejo que parte dessas pessoas que fazem essas exclusões costuma defender princípios como democracia, liberdade e diversidade. Não haveria nisso uma incoerência gritante?

Se no simples convívio virtual - quando basta uma simples rolagem de página para mudar de assunto - essas pessoas se mostram incapazes de aceitar o pensamento oposto, a divergência de ideias, ou mesmo a suposta “ignorância” do outro sem resistir a um impulso ceifador de silenciar o que o desagrada, como podem exigir democracia, liberdade e diversidade? Ou esses três conceitos só valem para aquilo que ela acha certo?

Naturalmente, estou sendo simplificador e não posso de forma alguma querer que as pessoas interajam nas redes sociais de forma padronizada. Muito menos que o façam do modo como acho correto, porque cada um faz de sua vida o que bem entender e não estou aqui para julgar nem ser farol de nada. Só não vejo problema em discutir e levantar algumas questões, o que, possivelmente, poderá me colocar na lista dos excluídos de alguns amigos.

De fato, o que determina quem vai fazer parte da vida virtual das pessoas é como cada uma encara essa tal rede social.

Há, por exemplo, quem a use para fins profissionais e só aceite contatos de trabalho. Há quem crie regras malucas, como uma amiga minha que limita em 50 o número de amigos no facebook: para entrar alguém novo tem de sair alguém antigo. E há, claro, o direito universal e incontestável de você conviver apenas com quem você quer conviver.

O que pergunto é se, apesar de qualquer opção pessoal que não me cabe julgar ou inferir, não estaríamos desperdiçando uma excelente ferramenta para troca de informações e debate? Mais ainda, não estaríamos perdendo a chance de conhecer como o outro pensa e a chance de aprender a conviver com isso e mesmo a chance de, desde que respeitosamente, tentar mudar isso? Ou mesmo desperdiçando a chance de se permitir mudar de opinião, assumir algum equívoco, aprender algo novo. Ou você acha que está sempre certo sobre tudo e sabe tudo que precisa saber?

Já foi dito por estudiosos que esse comportamento, muito típico das redes sociais, traz um risco: o de se cercar apenas de pessoas que pensam igual a você. Este risco é menor na vida real cotidiana. Com exceção da escolha de nossas amizades mais próximas, somos obrigados a conviver com a diversidade em ambientes como o trabalho, salas de aula, espaços públicos e reuniões familiares (afinal, parente a gente não escolhe, no máximo tolera). Assim, é mais difícil cercar-se apenas de gente que pensa como você.

O perigo de uma rede social seletiva (justamente ela, que permite possibilidades tão amplas) é a perda de contato com a diversidade. O isolamento em grupos concordantes apenas empobrece sua visão de mundo e limita as perspectivas da realidade: de como as pessoas pensam e do que elas gostam, para o bem e para o mal, ainda que estes sejam conceitos que dependem muitas vezes de sua própria visão de mundo.

Claro que uma rede social como o facebook não pode ser levada plenamente a sério como uma expressão da realidade, de como são ou de como vivem as pessoas. Sabe-se que na rede a tal vida exposta é sempre fragmentária e seletiva. Pessoas tentam fazer os outros acreditarem que levam uma vida feliz e agitada postando fotos de momentos felizes, quando certamente estas pessoas têm uma vida ordinária, monótona e normal como qualquer outra. A foto feliz é só um fragmento da vida dela, selecionada especialmente para dar a impressão de felicidade.

Também há pessoas que tendem a ser sempre engraçadas e outras que escrevem longos textos para parecerem inteligentes e ganhar dos outros o respeito que sua baixa autoestima e péssima capacidade oratória não permitem no convívio real. Ops!

Seja como for, o que tento reforçar aqui é uma visão das redes sociais como ferramenta rica em possibilidades, não como representação plena e final da realidade e do pensamento das pessoas, que são, obviamente, muito mais complexas e interessantes do que podem demonstrar por aqui.

Assim, vejo as redes sociais como um espaço rico para debate, para opiniões e também para diversão. Mas pode ser também uma oportunidade de se ampliar a visão sobre o diferente, o oposto e o divergente, coisas fundamentais na construção da cidadania e da compreensão da realidade. Sem falar na tolerância, algo sempre bonito de falar, mas difícil de praticar. Pois é nesta tentativa, cheia de fracassos pontuais, que insisto em jamais bloquear ou excluir quem quer que seja no meu facebook. Por mais irritações que isso me cause.
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Receita Pronta

Se ainda não é algo que possa ser chamado de fenômeno, tende a se tornar em breve. Ao menos as instituições estão seguindo a receita de junho passado para que se torne.

Até o último final de semana, os chamados "rolezinhos" vinham acontecendo com razoável grau de previsibilidade: algum desconforto para os shoppings e seus clientes mais habituais e só. Até que a PM usou de sua típica delicadeza para dispersar um grupo no shopping Itaquera.

Agressão gratuita, bala de borracha, gás, enfim, o kit completo do despreparo. E olha que desta vez nem precisou de editorial clamando para que se retomassem os shoppings dando um basta à toda aquela bandalha. Sem falar nas liminares concedidas pela Justiça, ainda bastante mal explicadas.

Pois é desse encadeamento de equívocos, como foram equivocados os editoriais e a resposta da polícia em junho passado, que pode vir a formalização de fenômeno desses rolezinhos. Pode vir daí, dos típicos equívocos das elites, repetidos por falta de memória ou por burrice pura e simples, o crescimento e a expansão desse fenômeno.

Mas diferente das jornadas de junho, que começaram capitaneadas por um grupo, o Movimento Passe Livre, e uma bandeira, a redução da tarifa de ônibus e metro recém reajustada, os rolezinhos surgem de forma quase espontânea, querendo apenas zoar, paquerar, dar uns beijos, olhar umas vitrines. Em suma: ver e ser visto. Nada diferente do que quer (ou quis) qualquer jovem, de qualquer classe social.

Pois sua legitimidade nasce e pode se chamar fenômeno justamente pela falta de bandeira e de liderança. O que, aliás, é o que vem dando um nó na cabeça de analistas, sociólogos, jornalistas e sabidos em geral desde o ano passado. Não há bandeira, não há exigência, não há diretoria, assembleia, nada disso. Só o desejo de estar, conclamado por rede social, sem nenhum propósito aparente que não seja “causar”, que na linguagem dessa geração quer dizer aparecer e provocar.

Contudo, é desse despropósito aparente que deveria vir a observação mais aguda do fenômeno. Se deixarmos a preguiça, a simplificação e o preconceito de lado, veremos que na entrelinha do gesto há uma causa, uma revindicação não formulada e não articulada. Talvez porque eles mesmos não saibam articulá-la, como quem sente que algo está errado, mas não sabe dizer o quê, seja por falta de recursos retóricos ou de compreensão do todo.

Mas como uma sociedade é um tipo de organismo vivo, a doença incubada em algum momento apresenta seus sintomas. Mas esses sintomas nem sempre são claros. Daí a necessidade de interesse e atenção para entender o que está acontecendo de fato, em vez de receitar uma aspirina, feita de liminar e bala de borracha.

Mas entre os sintomas, o mais revelador é sobre nossa sociedade. Mais deprimente do que uma sociedade em que as insatisfações de classe precisem se mostrar mediadas pelo consumo e seus símbolos de status, é a forma como esta sociedade está lidando com isso.

Não quer saber de ouvir, entender, observar e identificar o que há por trás dele, nem que aspetos e sintomas ele traz. Manda logo uma liminar, manda revistar, proibir, restringir, expulsar. É como se da periferia, de pessoas que ouvem funk, que vestem aquelas roupas, que têm aquele vocabulário e aquela cor de pele, não pudesse vir outra coisa que não fosse coisa ruim.

Como dizem os americanos: da última vez que fui checar, isso ainda se chamava preconceito.
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sábado, 21 de dezembro de 2013

O Articulista Lego


Ler jornais às sextas-feiras. Ai, meu Deus! Pergunta que sempre volta: quão raso precisa ser um articulista para ocupar nobre espaço e ainda faturar algum com isso?

Ao que se vê, profundidade e inteligência não são mais exigências eliminatórias. Basta, talvez, que se saiba bem disfarçar a nula profundidade por trás de um discurso pernóstico, empolado de citações, mas cuja estrutura não resiste a um esbarrão de mínima inteligência.

Ou seja, parece que basta ter lido muito, decorado algumas sentenças de efeito (ou saber buscá-las no Google ou no Wikipédia) e empilhá-las como se fossem peças de lego. Assim, com uma peça encaixada na outra, se reproduz algum pensamento, mas que não se articula, porque é só um arremedo de pensamento, não um pensamento autêntico. É um pensamento lego.

A graça (leia-se tristeza) e ironia disso é que são chamados de articulistas. A palavra vem de artículo, que pode ser uma parte de um trabalho escrito ou uma articulação óssea (veja! também sei pesquisar na Wikipédia, posso escrever no seu nobre espaço?). Porém, ao menos às sextas-feiras, alguns desses articulistas não produzem articulação, como se seus textos fossem bonecos de lego.

Pelo visto, a imprensa brasileira está criando um novo tipo de articulista, o "articulista lego": parece que pensa, parece inteligente, mas é só um amontoado de peças, quase sempre bem encaixadas, mas com uma estrutura dura, sem articulação. E, pior, desmontáveis por qualquer criança que já engatinhe.

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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A semelhança entre depredação e redução da maioridade penal



É possível notar, a partir das recentes manifestações, uma insuspeitada semelhança entre a defesa de atos de depredação e a defesa da redução da maioridade penal. Ainda que os dois gestos pareçam estar em lados opostos de uma mediana linha de pensamento, os discursos por trás deles se assemelham inadvertidamente pela banalização de um revide inócuo. Traduzindo: são iguais em desinteligência e ineficácia.

Isso acontece porque, em ambos os casos, a defesa ou justificativa dos dois pensamentos partem sempre muito mais de uma indignação exasperada contra o estado das coisas do que de uma reflexão honesta e madura sobre como mudar esse estado das coisas.

Tomemos como exemplo as depredações de agências bancárias. Com boa vontade, vamos desconsiderar qualquer gratuidade estúpido-juvenil e atribuir a elas o discurso que geralmente se atribui. Assim, essas depredações seriam um ataque a ícones de um sistema perverso, datadamente chamado de capitalismo.

Esses ataques seriam uma demonstração física do tamanho da revolta contra um sistema fomentador da desigualdade social, do enriquecimento de poucos à custa do trabalho de muitos.

Dessa forma, o gesto (a depredação) serve como retrato extremado e até mesmo discursivo, que revela em si a abjeção desse sistema sujo. Uma imundice contra a qual se deve manifestar e lutar em busca de mudanças.

Na outra ponta, de maneira mais passiva, mas não menos virulenta, há a defesa da redução da maioridade penal. Um discurso que, assim como as depredações, apoia-se na indignação. No caso, a indignação vem das “pessoas de bem” ante os altos níveis de violência e criminalidade.

Nesse discurso há também um alvo, os criminosos menores de idade, que por brandura das leis seriam estimulados ao crime, tornando-se uma ameaça para a segurança dessas “pessoas de bem”, assim como para suas respectivas famílias e seu honorável patrimônio.

Em comum entre os dois discursos está um misto de miopia e ingenuidade, somado a uma postura combativa, porém inócua. Ambos são justos e legítimos em seu apelo indignativo; ambos são até válidos nas suas proposições contra um estado das coisas, mas não servem muito a uma resposta eficaz que mude esse estado das coisas.

Isso porque nenhum dos dois discursos, através de suas respectivas chuvas de pedras contra vidraças ou perdigotos contra a lógica, vai além da satisfação de um baixo desejo de revide, de uma extremada ação que serve apenas para reduzir um pouco a imensa frustração e impotência diante de crimes e abusos que nos afetam cotidianamente.

Não há estudos que mostrem que a redução da maioridade penal representará uma redução nos índices de criminalidade. Como não há registro de que a quebra de agências bancárias tenha alguma vez desestabilizado o sistema financeiro. Sendo assim, ambas ações servem apenas como uma agressão sem objetividade ao sintoma e não à doença.

Ainda que em ambos os casos pessoas inteligentes e articuladas saiam em sua defesa, a impressão que fica é que importa menos a solução do problema do que a satisfação pessoal em ver alguns alvos de nossa indignação sofrerem a virulência do revide de nossa impotência real.

As indignações que pautam e dão sustentação aos dois princípios são justas e encontram voz em parte respeitável da sociedade. Mas revelam muito pouco de inteligência e conhecimento das reais causas do problema.

A questão é que a solução dos problemas contra os quais se tem gritado nas ruas e nas pesquisas de opinião demandam mais esforço do que atirar pedras ou colocar na penitenciária menores de 18 anos.

No entanto, engajar-se num esforço real e articulado, que vá além de discursos e faniquitos encapuzados, exige um comprometimento a que poucos estão dispostos.

Seja por preguiça, seja por individualismo, seja por simples incapacidade intelectual, fica-se sempre na superfície. Nunca se vai ao fundo. Afinal, reclamar e apontar alvos é sempre mais fácil, cômodo – e até divertido – do que fazer algo efetivo e cotidiano para mudar esse estado das coisas. Agredir exige menos esforço que pensar.
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Ilustrações: M.C. Escher

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Três vezes preconceito



Todos nós, em maior ou menor escala, somos contaminados por algum tipo de preconceito. Livrar-se dele exige um exercício diário e uma atenção permanente com julgamentos apressados. Pois se engana quem acha que não tem preconceito algum.

Para provar, dia desses me peguei no pulo. Assistia a um debate sobre cinema com críticos convidados e participação da plateia. Perto do fim, um sujeito pegou o microfone e na primeira frase soltou um “pograma”. Agucei o ouvido na dúvida de ter escutado direito e, em última instância, atribuí o deslize ao nervosismo do sujeito em fazer uma pergunta em público.

Mas não. No decorrer de sua fala, “pograma”, “pogramação” e “pogramador” se repetiram algumas vezes. No alto da minha sobriedade, não me lancei ao deboche como muitos fariam, pensando em alto e bom som: que burrrro, dá zero pra ele. Não. Mas senti uma irresistível vergonha alheia, um sentimento de pena instantânea que na sua gênese desqualificava o cidadão pela sua fala fora do padrão.

O fato é que no meu autoengano de não me achar preconceituoso – apenas por não debochar – estava exercendo outro preconceito, o de desqualificar alguém pela vergonha que sentia em vê-lo “falar errado”.

A lição não demorou a vir. Veio a cavalo e me deu um coice. Isso porque, a despeito da fala, o cidadão conhecia mais sobre o assunto que se debatia naquele instante do que todos por ali, público e debatedores. Mais que isso, apresentou um panorama, a partir de sua experiência, que desconstruiu todo o debate, trazendo à dura realidade o que até então planava no campo das vãs filosofias. Uma aula, praticamente.

O episódio me chicoteou forte. Logo eu, muitas vezes vítima de certos preconceitos de intelecto e capacidade. Um recalque, aliás, que carrego e que se reflete até no nome deste espaço.

Outro episódio mais amplo de preconceitos se revelou durante esta semana. Foi o anúncio de que o ex-presidente Lula ganharia uma coluna no jornal The New York Times. O anúncio, não tardou, fez chover piadas baseadas na conhecida pouca escolaridade do ex-mandatário da República Brasil.

Particularmente, não tenho mais grande apreço pela figura nem por seu partido. Ambos, ao longo dos últimos anos, pisotearam os valores que me fizeram ser um aguerrido defensor deles na juventude. Isso, contudo, em nada diminui minha admiração pelo sujeito que chegou onde chegou. Como tampouco me faz duvidar que ele tenha, sim, muito a dizer de relevante nas páginas do grande jornal.

Já os risinhos e as piadas (de desafetos legítimos a surfistas de ocasião), revelaram o preconceito sórdido que ainda impregna nossa sociedade. Quando não vêm disfarçados de piedade, como o que descrevi antes, vêm na pele de piadas infames.

O que me lembrou de um episódio curioso vivido por um amigo. Era um desses coquetéis de lançamento de livro. Apesar de humilde e sem grande instrução formal, esse amigo é um leitor dedicado e, sobretudo, apaixonado pela literatura. Meio deslocado, avistou dois rapazes, que conhecia “de vista e de chapéu”. Sorriram-lhe, talvez por reconhecê-lo de outras bandas literárias. Por educação, ele se aproximou para cumprimentá-los.

Depois de algumas amenidades, por trás de óculos de armação enorme, um deles perguntou o que meu amigo andava a ler. “O Estrangeiro, de Albert Camus”, respondeu ele. Percebeu, então, que ambos não conseguiram disfarçar um riso contido, que ficou entre o deboche e o constrangimento por não poder evitá-lo tão à face do outro.

Desculparam-se sem graça, mas não se furtaram a corrigi-lo em tom infantilizado, como os adultos costumam se dirigir às crianças: “Se diz ‘Albér Camí’”. Explicaram que o autor era argelino e, portanto, francófono. Daí a pronúncia, reforçada por eles em bico de francês postiço e seguramente mal pronunciada, em contraste com a pronúncia aportuguesada que meu amigo usara.

Sentindo-se um pouco envergonhado e sem saber o que dizer, preferiu seguir falando do autor e perguntou o que já tinham lido dele. Entreolharam-se, e sem muito constrangimento admitiram que nunca leram “Camí”, apenas tiveram algumas aulas de literatura no colégio de renome que estudaram.

Meu amigo, que nunca estudara em colégio de renome, já tinha lido todos os livros do escritor. Duas vezes. Mas aos olhos da sociedade isso só valia alguma coisa se ele soubesse pronunciar o nome Camus com aquela impostação artificial e colonizadora, de quem mais se preocupa em parecer do que ser.
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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Maioridade Penal




Responda com sinceridade. Quais as chances do debate sobre a redução da maioridade penal estar em evidência hoje caso o jovem baleado por um menor de idade, durante um assalto e diante de câmeras de segurança, não tivesse morrido? Arrisco a dizer: zero. Está aí a primeira coisa a se ponderar no momento.

Hoje, basta um caso mais dramático chamar atenção e repercutir para que se levantem bandeiras apressadas. Pode ser a maioridade penal, a pena de morte, a legalização do aborto, a descriminalização da maconha ou qualquer outra polêmica adormecida que, subitamente, de uma hora para outra, parece se tornar urgente.

No caso específico da barbárie de um latrocínio praticado por um menor, a voz que assoma à garganta de muitos, pedindo pela redução da maioridade penal, é menos um grito de justiça e mais um grito de justiçamento. Não são vozes em busca de uma melhora da segurança pública, mas em busca de uma execução que aplaque seu doído sentimento de impunidade. Justo e compreensível, mas nem um pouco racional. E é a irracionalidade da turba feroz que o Estado tem o dever de barrar.

Primeiro, porque quem grita pela punição mais severa de menores de 18 anos dificilmente tem conhecimento sobre números da criminalidade. Menos ainda saberiam citar algum estudo sério que comprove que a redução da maioridade contribui para a redução da criminalidade.

Segundo, porque ficam todos sem resposta diante da questão inerente ao problema de uma redução, digamos, para 16 anos. Como ficará se, no futuro, um jovem de 15 anos cometer outro crime bárbaro? A grita será por nova redução? E qual seria o limite dessa redução?

O que não se percebe, por mais óbvio que seja (ou deveria ser), é que existe uma diferença entre um debate ponderado sobre questões como essa e um levante popular influenciado por um crime que chocou a todos. Mais assombroso ainda é não se perceber que o desejo não é de uma solução estrutural, mas de uma punição pontual. O tipo de punição capaz de aplacar momentaneamente o sentimento de injustiça, mas pouco importando se o problema da criminalidade está sendo resolvido com aquilo.

Não se percebe ainda que toda grita deveria estar direcionada para outro aspecto, exigindo melhora nos mecanismos já existentes em nossa legislação. Políticas de amparo ao jovem de classe baixa, políticas mais eficazes de segurança pública, aplicação correta do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), criação séria de programas assistenciais de infraestrutura para reabilitação e reinserção de menores infratores.

O que precisamos aprender é que pouco se resolve quando a cada novo fato novas leis são exigidas. Bem ou mal, nossas leis e mecanismos sociais já estão escritos e atendem com razoável amplitude os problemas de nossa sociedade. Mas enquanto forem apenas letra morta em papel empoeirado nada vai melhorar. A luta não é para se encher mais páginas com novas letras natimortas de leis elaboradas no calor da indignação enraizada na desinformação. Mas de fazer aquelas já escritas serem cumpridas exemplarmente.
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